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Hoje é a ultima vez

aurora-borealis1

Aracajú-SE 20.12.2008

Querido amigo que não me vem mais

Soubesse a dor que fica ao ver ir na canção o mar, não quereria partir jamais. O dia até fez sol, mas não queimava as peles, e o ar parecia pesado demais para atmosfera que no tempo jazia. Foi estranho atender ao telefone e sentir-te nos fios tensos de uma voz, ir partindo. Mas é claro que não posso acreditar que não me escreverás mais nunca uma linha se quer, que tudo quanto se conjugue agora, sinta eu só; não sentirás nada e nem nada dirás, mas de certo será como uma praia povoada por corpos efusivos e teu espírito pleno e calmo entre as margens.

A água era fria? Bom, nem senti direito, o vento estava muito forte e a areia da praia incomodou meus pés. Passastes tanto tempo sem escrever, quase nem soube por onde andou e só pude comemorar tuas vitórias atrasadas, mas lembrei-me e agradeci sim. Se eu pudesse ver teus olhos agora certamente eles me diriam: PSKTIL. De certo que me calaria, para pensar, porque é incrível como a teu lado não há o que se diga que não tenha reflexo no outro.

Hoje não sorri e decidi que melhor seria escrever-te, entenderias a necessidade de não rir, não para sempre, mas não rir só  hoje pela ultima vez. Percebi que a muito também não rias, estamos ficando sérios: um boneco como eu tão sério, boa coisa não é. É que o vento me soprou gelado e não saíram da caixa de brinquedos todos os outros amigos e de repente vi-me hoje só. A bailarina não me escreve o poetinha também nunca mais estabeleceu contato. Sei que você, ao menos você, se não estivesse ocupado, escrever-me-ia. Aliás, hoje fui buscar num relicário algumas cartas antigas e me veio uma tua: sua letra é mesmo algo indecifrável ( e não adianta fazer cara feia por isso, sabes que é bem verdade).

Horas e horas de olhos fitos para entender que queria dizer-me que o ano seria bom, ao menos que você desejava que assim fosse, ah, e nem esquecer-me-ia de dizer que os girassóis naquele quadro são realmente fascinantes, se cheira bem, nem eu nem você saberemos, mas fiquei curioso de entender como a partir dele te veio aquele poema em que falavas das cores e dos tons celestiais, cada anjo, cada nuvem encorpada multicor. Quem diria que ias escrever tão bem os versos. PKSTIL, não reclame, isso é um elogio e fiquei feliz com o poema. É certo que levarei mais alguma eternidade para senti-lo. Guardado já está, a verdade é que se perdeu no vento, mas me lembro alguns versos seguramente.

Depois vou querer saber como se faz e como se sente, era tão intenso que nem compreendi bem o ensino. Também, mas falava-me com os olhos que me dizia com a boca. Só de lembrar o frio na barriga ao imaginar que não ia conseguir soprar dentro da garrafa de vidro, ufa. Não seria eu um bom flautista mesmo. Esse é um oficio para quem os tem em gozo: mas adimiro-te ainda por tua coragem, a bailarina também é forte. Sair de casa e viver a arte em outro lugar e por cima acreditar na magia dos sons. Não sou fraco, não é isso, mas penso se nos vale de qualquer coisa que se oferte em corações abertos.

Ei  amigo, quase ia me esquecendo que te prometi uns versos. Esses meses foram tão estranho que nem mesmo escrever eu conseguia. Agora te mando este para que sintas como se fosse o vento em calmaria e o balanço doce do mar agitando as ondas que batem solenes a partida das jangadas, porque chega de tarde e ele se vai sem muito alarde, segue a tarde a procurar, a representar.

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