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Posts Tagged ‘moinho’

Aracaju

Querido poetinha

Porque hoje só me resta o cansaço. Esperei toda um mês por uma carta, uma linha ao menos de coisa alguma que me fizesse sentir o vento. Que fossem olhos que tocassem e mãos que me vissem por completo. O dia não veio e com ele uma carne que dilacera mais que antes: É o medo. Quando vem os segundos e te empurram sempre um minuto para cada hora do mês, os anos passam por ti e questionam teus atos. Escorregamos sempre mais um defeito: não sabemos esperar, ou temos pressa demais para o pouco tempo que é indízivel. é estranho como sentimos a saudade né poetinha? Como sentimos dor, medo, e principalmente esperamos por tempos em que virão de algum lado toda a calmaria.

E tudo que se sonhou navega ancorado na busca, no desejo de sermos, de simplismente sermos. E não é que isso tudo não é questão de tempo. Eu mesmo, estou aqui a te escrever com a mesma sincronia de um tango de Piazzolla, no mesmo compasso doce depois que se encerra o solo. E mesmo que o senhor, meu nobre e doce poetinha quixotesco não entenda as batidas dos meus dedos na madeira boa do violino, não deixarei vencer os moinhos que algum dia antes deixei escapar.

Recebi a dois dias teu email: Tive medo por estar só entre os detritos. Não nego que sejas forte, mas não possuis uma espingarda como a minha nem mesmo um pelotão inteiro de outros soldados para te fazer guarda. Entende agora a necessidade de não estarmos sós? Lembra quando conspiramos contra os planetas e tudo isso em notas breves. Feliz presença em meu caminho aquele dia em que nos vimos em outra terra, e tu me disseste no e-mail: Agora estou melhor. Que terrivel experiencia essa de ficar enfurnado em uma caverna. Aquele lugar é muito deprimente. Por sorte os colegas são em geral amistosos, o que atenua a situação. De fato, eu estava cansado e, embora não triste, entediado. Precisava naquele instante de um banho, de uma refeição a minha maneira e de uma cama onde ficar. Mas não posso me angustiar com isso, porque é a função do homus laborandi que mora em mim, e em todos os outros idiotas sociais. E quem pode ir contra o fato nu e cru que férias no Chile custam caro?  Bem sabe que meu conhecimento musical é obtuso, que minha arte pendeu pra outro viés. Apesar disso, posso dizer que foi uma experiência agradável ouvir sua orquestra e vê-lo tocar. Achei curioso aquele tambor colossal e uma espécie do gongo do lado esquerdo do palco.  

Realmente foi uma coincidência tremenda para nós que não entendemos as regras não escritas dos encontros e desencontros. Talvez a lição poética do rabugento Aristóteles a respeito da necessidade e verossimilhança se aplique à vida dos homens ‘inferiores’ e nao somente às casas reais. Se for assim, então algumas coisas TÊM que acontecer e se ocorrer de outro modo é que o  destino rasgou o texto para reescrevê-lo desde a primeira linha…
 
Então poetinha, só não começe a escrever do ponto daquele estranho começo  e nem mesmo do ponto daquele ultimo abraço.  
 Fique bem.
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