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Tatuagem

“Te enrustiste em minha vida e cada hora que passa é mais por que te amar, e sabe o que eu sei? Essa saudade de estar perto se longe ou de estar mais perto se perto” e com isso se vai quase todo meu sangue. O desejo não está somente nas carne e nem tão pouco minhas pernas são como trechos indeléveis de uma peça. Nesse caso mais que antes e amanhã que sabe mais forte que hoje eu vá sentirte nos fios tensos, nas linhas de uma estrela de Davi, sentir-me mais eu por que  antes de você chegar era tudo saudade…

Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem
E também pra me perpetuar em tua escrava
Que você pega, esfrega, nega
Mas não lava

Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem
E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta
Morta de cansaço

Quero pesar feito cruz nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem
Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marcada a frio, a ferro e fogo
Em carne viva

Corações de mãe
Arpões, sereias e serpentes
Que te rabiscam o corpo todo
Mas não sentes

(Chico Buarque)

Pela leveza do novo

Me aconteceu de ele aparecer assim do nada: depois de uma apresentação do Renantique (grupo de música renacentista da cidade de Aracaju-SE) apresentado a mim por um amigo que também assistia ao espetáculo. Descobri quase que ao mesmo tempo a existência da rádio UFS e que aquele moço a minha frente fazia parte da estação como locutor. Era de cara um diferencial: novo e despojado dos termos tecnicos e de tudo quanto fosse convencional para estar à frente de um horário nobre mesmos endo a rádio nova na praça.

Marcones Dantas, nascido em Sergipe e contando agora 22 anos de idade é estudante de comunicação com habilitação em radialismo pela Universidade F ederal de Sergipe (UFS).  Já tendo trabalhado em estações AM está a um ano e dois meses a frente da Rádio  UFS pelas manhãs em sintonia FM e desponta como um diferencial entre as locuções já existente em Sergipe. DSC02093Sabe dosar a jovialidade e a maturidade de saber o que a sua geração quer ouvir além de ser dono de um timbre de voz pecualiar que o diferencia cada dia mais no meio da multidão.

SDC: Quando você decidiu estudar radialismo?

MD: Sempre gostei de rádio, desde pequeno. Eu além de ouvir muito, costumava fazer gravações domésticas e me divertia com isso, então decidi prestar vestibular para essa área.

SDC: Mesmo sendo arriscado ingressar numa área em que as oportunidades não são tão diversas como a do radialismo aqui em Sergipe, por que persistir nessa aspiração?

MD: Primeiro por gostar. O dinheiro, apesar de ser necessário, acredito que não deve ser o único fator na escolha de uma profissão. Ele será uma conseqüência da minha escolha e do meu trabalho; poucas pessoas têm a oportunidade de trabalhar com o que gostam, e eu sou uma delas.

SDC: A que você atribui essa restrição de mercado? Qual as perspectivas de mudança?

MD: Essa área de comunicação é pequena mesmo, principalmente em estados pequenos. Ela é mais ampla no sul, onde se concentram as grandes emissoras e cadeias de rádio. Com a internet a tendência é do profissional audiovisual, não mais aquele que só faz uma determinada tarefa, mas aquele que tem a capacidade de passar por diversas fases da produção audiovisual, seja no rádio, na televisão,  no cinema, e ainda na internet

SDC: como surgiu seu primeiro contato com o rádio já profissionalmente¿ Você sempre foi um ouvinte¿

MD: Sempre fui ouvinte, cresci ouvindo rádio. Minha primeira fala no rádio foi na Aperipê AM, a convite de uma colega do curso que fazia a matéria laboratório. Depois apresentei durante 10 meses um programa religioso semanal na Atalaia Am. Nesse período a rádio ufs, emissora da qual já fazia parte entrou no ar. E eu fiz a primeira locução da emissora em 20 de agosto de 2008, e desde lá apresento um programa diário.

SDC: Sobre o clichê de que os radialistas devem ter uma voz em tons graves gritantes você surge como uma dicotomia já que consegue transmitir uma certa leveza no tom grave natural. Como lidar com essas percepções?

MD: A voz grave sempre foi muito admirada e solicitada pelo rádio. A minha voz tem um quê de grave, é um timbre mais educado, não carnavalizado.

SDC: Outro marco dessas diferenças todas e a pouca idade. Ela é fator para a manutenção do tempo de vida no ramo ou num caso oposto, ter pouca idade significa ter algumas portas fechadas?

MD: No rádio antigamente, todos começaram cedo, e eu acho que a idade não tem muita importância não.

SDC: Você acredita que ser um diferencial de idade e voz, abre portas para uma geração de meninos e meninas que podem sonhar em realmente seguirem o caminho da radiodifusão?

MD: Eu acredito que todos devem correr atrás dos sonhos independente de idade.

SDC: A mais de um ano no ar das 08:00 às 12:00 à frente da programação da Rádio UFS o que mudou desde seu inicio,? O que veio como contribuição e de diferente no que já víamos nas rádios sergipanas?

MD: A rádio UFS tem uma programação boa, porque mescla diferentes ritmos, e independe da indústria fonográfica. Quem diz o que toca é o programador, não o empresário da banda A ou banda B, que precisa pagar “jabá” para veicular a música de seu artista – prática comum no rádio brasileiro. A emissora não é refém da publicidade e preza pelos valores do bom gosto.

SDC: Como avaliar o que os ouvintes querem escutar ou identificam-se com a programação? O que você como programador imprime na defesa da qualidade da sua estação? Nesse sentido como você se posiciona em relação ao rádio jornalismo?

MD: A emissora tem uma linha musical já conhecida pelos aracajuanos, então o ouvinte sabe que pode interagir conosco, pedindo músicas, porque compartilha do mesmo estilo musical. A parte do jornalismo fica por conta da parceria com a Empresa Brasil de Comunicação, que veicula de hora em hora um boletim informativo com a duração de 3 minutos.

SDC: O que não pode faltar na sua programação? Qual o critério para selecionar o que é qualitativo e o que realmente aproxima público e estação?

MD: A palavra qualidade é difícil de explicar. Ela é muito subjetiva, o que tem qualidade para mim, pode não ter qualidade para você. Escolho as músicas que gosto dentro do repertório proposto pela emissora.

SDC: Como você avalia a relação da população com as rádios e também das rádios com o seu público nessa briga intensa por IBOPE?

MD: As emissoras comerciais precisam realmente medir sua audiência. O mercado de anúncios vai querer saber a quem e a quantas pessoas, determinado programa atinge.

SDC: Na sua opinião, o que deve ser feito pra mudar essa realidade?

MD: Essa realidade competitiva é natural do comércio, uma emissora que atinge mais ouvintes é uma emissora que toca o que os ouvintes querem ouvir. Geralmente essas músicas são ditadas pela novela, pela televisão e pela indústria musical. A rádio educativa pelo fato de ser pública não precisa de anúncios, por isso tem a independência de tocar o que lhe convém e não o que está na moda.

SDC: quais suas aspirações em relação ao campo da comunicação?

MD: Desejo continuar na área e estou aberto a novos aprendizados e a passar por outros horizontes profissionais.

SDC: Fazendo um balanço dos avanços tecnológicos e nesse sentido o compartilhamento cada vez maior de músicas pela Internet, como manter um Público assíduo e compromissado com a proposta da rádio UFS e em especial os eu programa?

MD: A tecnologia mudou a forma de comunicação. A rádio funciona como um referencial musical. As pessoas baixam músicas na internet, é fato. Mas geralmente baixam o que ouviram numa rádio, viram num filme, elas não vão para internet sem referência.

SDC: Qual o gênero ou artistas do momento? Defenda para os leitores do soldadinho um artista que deve ser ouvido no momento.

MD: Eu sugeriria a combinação Gal Costa + Dionne Warwick. Gal Costa dispensa apresentações. A Dionne é uma cantora norte-americana estilo soul/pop, gosto dela por seu timbre de voz firme e suave e de Gal por sua voz diferente e por sua boa interpretação.

Gal Costa: Divino, maravilhoso, Que Pena, Ovelha Negra, Esquadros, Namorinho de portão, Imunidade racional. Dionne Warwick: I say a little prayer, I never fall in love again, I never love this way again, It’s you (Com Stevie Wonder), That’s what friends are for.

A despeito da desordem

Lucas saiu do quarto quase cambaleante e escorou-se um pouco entre os cantos largos da parede da cozinha, buscou para si um copo com água e foi aos poucos se recompondo; não foi se quer preciso recorrer aos remédios para controlar sua pressão. A respiração lenta dava o tom de seu desespero que ia se pondo em calma.

Desde que seus pais romperam o relacionamento duradouro e aparentemente muito feliz que como fruto deu-lhes três filhos (dentre esses, ele próprio que se assemelhava em muito aos educados e gentis meninos que fazia as estatísticas despencarem sobre a moral e a ética do bom convívio) o menino desenvolveu tal asfixia toda vez que seus pais resolviam voltar às mazelas da não tão bem resolvida separação.

Não era de se estranhar o fato de que Lucas foi o único a fica com o pai, era o único homem e desse modo o relacionamento afetivo do entendimento seria mais pleno, suas duas irmãs como haviam ficado de imediato com a mãe talvez nunca fossem ter a dimensão do que é estar ao meio do fogo cruzado.desordem-domestica

Não restava duvida para o menino em relação ao amor de seus pais pelos três, de todo modo sua mãe insistia em fazer do menino a fonte da discórdia entre eles todos. Sua irmã mais velha já havia se libertado da infância quando a mãe deu-se conta de que por bem das regras perderia a pensão da menina e com isso Lucas passou a ser alvo de desejo; o fascínio por fazer com que o menino fosse viver com ela ia além de seu amor por ele, e não excluindo esse fato o amor tinha que vim junto com a pensão que ele representava se conseguisse provar ao meritíssimo que ela era a mais preparada para cuidar do menino em fase de ebulição hormonal e da afirmação de sua personalidade.

Daí às brigas foi uma linha muito tênue e que criou como vitima mais grave o menino de ainda doze anos. O pai não abria mão de estar ao lado de seu filho e mostrava-se lesado por que de três filhos ficou com apenas um e já a mãe mostrava a ele a importância de o menino ter seus cuidados mais afincados na relação doméstica de sua condição de mulher e mãe.

Em meio aos gritos de acusações extraconjugais e passados em rosto o desgaste da relação num tom violento de desafio à loucura, ninguém teve tempo de perceber-lhe aos cantos chorando por se perceber tão barato quanto todos os objetos que se pode comprar nos mercados. Ninguém se preocupou ao menos em perguntar num tom amistoso com quem o menino pensava ser melhor viver, se as mudanças arrancariam dele parte das conquistas já feitas como os amigos e vizinhos, a sombra da árvore daquela rua em especial ou mesmo às manhãs calmas as quais passava a relatar tímido e acuado o quanto desejava não ser como um fantoche naquela briga dos dois.

O quarto já não era nunca uma fortaleza quando nele ressoava os ecos altos daquilo que chamavam seus pais de uma conversa amigável e a bem dos meninos, a bem de manter a ordem social do lar e com isso a pressão colérica em sua cabeça de escolher entre o pai e a mãe ia definhando o menino em problemas de saúde e autofirmação que ele não estava domesticado a entender e saber a melhor maneira para livrar-se deles. Só sabia mesmo que quando o interfone tocava anunciando a chegada de sua mãe, logo ele corria para a cozinha em busca de seu remédio para controlar a pressão. Em outras vezes ou não estava em casa ou estava dormindo como no dia em que foi abruptamente acordado pelos ecos altos e instintivamente começou a sufocar e saiu do quarto quase cambaleante e escorou-se um pouco entre os cantos largos da parede da cozinha. Buscou para si um copo com água e foi aos poucos se recompondo quando se percebeu no meio de mais um sonho confuso de discórdia familiar que teimava em acordar-lhe várias vezes seguidas à noite quando se aproximava o fim de semana que sabia que ia ter de passar com sua mãe. Sentia como prever a hora de sua chegada e com isso percebia o risco de mais uma desavença, e com isso se perdia em suores intensos que molhava toda a roupa de dormir e não mais conseguia voltar a dormir.

Lucas sentava-se no chão da cozinha e sentia estar atado a nós que talvez não fosse aprender nunca a desmanchar. Seus pensamentos perpassavam o ar da madrugada que assobiava em seus ouvidos as histórias que ia escrevendo em seu caderno para que na se segunda-feira seu professor pudesse ler no horário de intervalo das aulas.

Aracaju-SE

Bom dia senhorita,

Eu não concebo essa imagem em minha cabeça, e se as vezes ela me encontra num canto é como que para aparar as arestas que ficam do vazio pensamento. Ou os pensamentos transbordam imensamente lá dentro que não consigo expô-los ou os tenho em silêncio; a segunda melhor que a primeira para dizer todas as coisas à nossa volta.

Acordei para esse fato sem mesmo acordar em outro dia. Ainda é noite, madrugada: dia então já que o relógio fez a volta completa e me despertou nesse transe nocturno. jonas

Os ratos pararam essa noite, e os passos se calaram para ouvir minha mente:  a respiração pulsa numa valsa de desculpas;  me afogando em Adeus revolvo  na cama. Embora as luzes estejam apagadas consigo ver o brilho dos outros olhos e o ar não é puro, está condicionado e isso nos confunde entre homens e máquinas.

Cada pessoa enxerga o que quer enxergar e talvez não seja de todo um erro. Podemos criar nuances e ir descobrindo tons que antes nãos e viam nas flores. Estou inquieto demais e não consigo dormir; passei a mão em minha pele e descobri barba que a um mês atrás não existia e então seus cabelos crescem parecendo querer igualdade. Tanto faz se os dedos são compatíveis. Se na memória ficam as lembranças, o coração vai numa estrada que depois do amor amanhece.

E o sono é como o silêncio, nele tudo se dobra e tudo  resguarda: nesse intento é que preservamos a saliva de outros beijos e renascemos donde nem o tempo nem a vez é como a saudade da realidade. O vazio se preserva no corpo ardendo em mim e por issoa cama não é como um leito acolhedor. É tão coice, é tão duro abrigo que ensina a esquecer.

Despertas! O sono não é bom sozinnho. E se me despeço é por não escutar tua vinda aqui. A tv lá na sala ligada não é um bom atrativo, prefiro o samba; canto um canto como quem faço amor na madrugada e me falta a poesia.

As mãos atadas não dizem nada. Na verdade nehuma parte de mim responde à inercia em que se abriga o desejo: que não é preciso ter mãos nem pés, nem beleza para existir de um corpo como a madeira boa de um violão. Os acordes todos, a melodia vamos conhecendo aos poucos; no toque é que sentimos a textura das casas e se nelas habitam os homens e os vermes. A dor do silêncio coisa pequena, é que me transfigura e empalidece. E quão óbvio é o que o grito sussura aos teus ouvidos não? É uma vida sobresaltada; não sei nada e é a mesma porta sem trinco, o mesmo teto. Àquela rua vai dar na mesma estrada.

Itabaiana-SE   

Carroceiro…

Receio que essa carta te cause sensações estranhas. As senti diversas vezes e todas em silêncio. É verdade que algumas delas, as muitas, eu calo; não entendo porque cargas d’ àgua eu recei tanto as palavras. Rato na Escola NavalDesejei algumas vezes em muitos dias e horas diversas não conceber o dia em que meus pés seguiram uma dança entre compassos desconcertados, porque teus pés não seguiam iguais aos meus.

E não entendo então o porque de eu achar que por mais que você finja ser longe, distante as vidas, eu sinta você sempre um passo diante de mim. é como um dia de chegar e sei que não virá. No fundo nunca o soube ter, nunca o quis partilhado e meu egoismo não me deixa ver que eu te amo.

Ora, então amar não é ser liberto de toda e qualquer predisposição ao medo? Não é senão o ato continuo de sentir cada rusga dolorosa ou não de um riso distante? E como então eu posso dejejar-te como modelo do que sonhei pra mim? Como posso dizer-te que as línguas falam a mesma boca se as bocas são fartas e tantas quantas o desvelo de querer o vento?

O tempo. Exíguo eu sei. Mas o medo, a sensação de não me sentir querida é muito além do que teus olhos me dizem quando se negam mutuamente nos espaçose por isso me calo, e cogito possibilidades imensas sobre o que não quero ver como real e que tá posto. Nunca vou compreendê-lo, e isso não me fere tanto, não mais do que o fato de que nunca mais veio ter conosco aqui, que não me veio nunca numa carta ou mesmo quando sinto teus beijos entranhados em minhas carnes e isso me fere por não tê-los todos os dias.

Mas sei que o apego pra você vem em outra percepção e que a fidelidade que me tens eu é quem a jogo por baixo do tapete, para não naturalizar o fato de que te tenho intensamente e em verdade às vezes em que me sufocas em silêncio.

Para viver com poesia

Aracaju-SE

 Amigo João

 

Ouvi dizer que a revolução conquistaria à todos o direito não só ao pão mas passeiovan goghtambém a poesia; desse modo fiquei a tarde toda remoendo velhos livros e velhos poetas: por sorte não encontrei nenhum manual revolucionário e nem mesmo a lembrança dos dias confinados às discussões mais filosóficas e existências que políticas, ou mesmo as de quando era sentindo a poesia que nossos corpos se punham frente à luta.

Não faz muito tempo, claro, e por sorte descobri que os versos era a própria revolução (e não que eu entenda a poesia como algo definível ou que conste num manual), mas creio ser um passo de uma armadilha e uma pré-disposição à luta diária: se a poesia nos vem para a revolução ou se a sentimos dessa forma é questão de sentido, de percepção, e contra esse fato não podemos argumentar ou definir uma linha para a sensação. E então como podes me dizer caro amigo que as pessoas ainda se assustam com os seus versos, com todo o realismo fantástico que Bukowski lhe trouxe num vago pensamento em que se escondeu toda a inspiração, e depois, a depuração dos versos, palavra por palavra como um desenho, me vem à mente de que a poesia não conquistará a todos o direito ao pensamento, à liberdade de não refletir sobre o óbvio e anular a sensação de existir e ser a partir de um fragmento.

A verdade é que na sinto muito dessa forma. A poesia veio para mim num dia como essa tarde em que te escrevo amigo João e não a percebi por completo naquele momento e nem em outros dias que seguiram sem que eu soubesse que tudo quando eu pensava e transpunha ao papel era uma respiração poética. A revolução chegou para mim primeiro, de uma outra forma e num outro sentido dialético, só depois entendi que pretendi com o que lia e escrevia a revolução mais intimista.

Desse ponto em que me abriguei, percebi o quanto a poesia lutou para que eu me transformasse, para que o sentido fosse então completo e eu pudesse enxergar com cores as quais nunca ninguém descreveu, e nem descreverá e nem eu a encontrarei na tua poesia. Ela me contempla João, mas receio só você mesmo poder conceber as cores as quais não vejo nela, assim como nunca verás cor alguma na minha revolução.

 


mar

Aracaju- SE

Tenho ido assim como permitem as circunstâncias. E eu que queria ser liberto, percebo pateticamente há um senhor, que isso de liberdade é tóxico vocabular; a sensação de liberdade é um simulacro de prazer.

Passa com a derradeira picada, com o ultimo trago, com a viagem final e fatal. Não entendo como se pode ser livre e civilizado. Porque uma liberdade com hora marcada,  com consulta as nove,  também não interessa.

De qualquer sorte, a vida nossa, ei-la ai, esse mal que aflige os maus e os bons. Mas o homem sitiado tem outros prazeres, decerto. Na cidadela de sua liberdade fantástica, há deleites de ordem menor. E não preciso descer aqui a miudezas de detalhes, porque bem sabe do que falo.

E que paradoxo doloroso, esse de imaginar  com tantas cores um céu livre que se resume ao preto e branco da necessidade, nu de nuances, de entretons.

Viver me parecer ser isso: ir-se despindo dessas cores que matizam a liberdade, até que nos precipitemos camaleonicamente, no vazio incolor da necessidade última: que é morrer.

12.03.2009