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1. Esse é o ponto essencial em que me dispo para rever partes de mim que por muito tempo foram ficando ao meio do caminho. Sejam afetivas, literárias, ideológicas e aspirantes.  Seja por minha culpa ou por mero engano. Rememorar é imprescindível embora confunda às vezes. E se existe crise, se existe dor, certamente foi produto de alegrias anteriores e justamente por não me afastar dessa ideia de plenitude não me nego pautar a felicidade de outrora. Foi justamente tentando acertar que me fizeste escrever em pontos, lembra? Sem mesmo saber me fizeste criar um gênero textual quiçá. Faz tempo e não tenho usado os pontos para dilacerar alguma sensação, justamente porque eles só parecem fazer sentido quando estão diretamente relacionados aos sentimentos. Apertar o cinto agora é o mais seguro: vamos digredir o tempo e nos perder.

 2. Esses dias me peguei atento a lembrar como conheci momentos, coisas, pessoas. Lembrei que em  99 quando assisti central do Brasil e era ainda tão novo fiquei paralisado com a possibilidade de contar histórias em imagens. Aquela trilha sonora lacerante que me fez voltar a estudar violino e que foi prelúdio para que quando eu assistisse Tudo sobre minha mãe soubesse que também se pode escrever histórias através da música. Com o mesmo torpor eu recordo meu corpo na areia fina da praia. Estava contemplativo escutando o mar e vendo as ondas quebrarem quando te aproximastes de mim tímida e quase silenciosa. Fiz silêncio por instantes, há muito de silêncio em mim, em minhas palavras. Dentre tantas pessoas comuns, foi justamente o teu corpo que foi encontrar o meu em discordância de quase tudo.  Fico feliz que tenha sentido de imediato que ali repousava sabedoria e sentidos além do senso comum que bem sabes qual.

 3. E não! Não te preocupes em achar que estou entrando pela porta sem ser convidado para a festa de aniversário e causar incômodos tentando reconhecer a importância da tatuagem no corpo alheio. Apenas passearei sobre momentos em que teu riso fez folia em minha vida e inebriou de brilho o sentido de ser par. Não são muitas as vezes  que nós partilhamos a um outro, é difícil, é um processo longo o de entender as regras que derrubam qualquer regra para jogar o jogo de ser um só. Por isso Meu nome não é Jhony acaba sendo sempre motivo de risada quando vejo menção a ele. Por isso toda vez que o vejo é como se fosse um beijo meu ou teu ou nosso. E sinto saudade verdadeira de todas as Rosas, tribos de Levi ou Elias em meu caminho. Era um tempo de delicadeza.

 4. Até eu teria preguiça de continuar lendo, mas vá até o fim. Você sempre me disse para não desistir.

 5. Li dia desses umas cartas que foram como socos no estômago. Nem eu lembrava que no fundo existe algo de positivo em mim. Pontos que faziam pessoas como você acreditar que eu fosse presente de Deus. Ri muito e de felicidade ao perceber a imaturidade e excitação de tuas linhas que me faziam sentir mais teu. Imagina só reconhecer que ao ler as cartas deste velho soldado de chumbo te causava raiva imaginar que escrevia para outro alguém. A velha mania de não entender a principio a separação de ficção e realidade e encontrar verossimilhança. Escrevi-te uma um dia para que entendesse que quando falo a ti, falo para que entendas que sou eu e te reconheças nas imagens. É das cartas que mais gosto, porque também gosto do Mahler. E por falar em ficção e realidade desenterrei umas músicas de um velho cd com capa amarela que fizeste para mim com uma seleção musical inusitada. Muita delas faz mais sentido agora.

 6. Estar longe ou  retira-se é também uma estúpida retórica para entendermos a necessidade de esperar pelo tempo. É mergulhar para nos encontrar mesmo sem querer saber o que vai descobrir. E a contemplação que faz sentido em partes separadas, adquiridas dia a dia, te faz sentir raiva e paralisar. E desejar acima de tudo. O desejo é o veneno bom que me impulsiona para estes pontos.

 7. Esse número parece ter mais sentido associado a você. Imagino que saibas bem que quero ir por uma observação que até hoje me espanta. Essa mania louca de associar números a fatos, datas determinadas com a quantidade de meses transcorridos desde o último evento. Isso tudo sempre me fez achar em você doçura. Uma maneira leve de encarar a dureza dos dias debaixo de cada perspectiva. Sem contar o fato de teres uma memória incrível. Eu não saberia dizer o número de meu último telefone, mas até pouco tempo atrás tu sabias um em especial, bem velho. Conquistado a força e que me envolveu num mundo de comunicações sem limites. Veja, hoje não consigo imaginar-me sem ele.

 8. Acho  mesmo que os últimos pontos foram escritos apenas para mascarar a saudade de estar contigo a meu lado e de cavar tuneis que me levassem de volta a tudo que me prendeu, sem saber ao certo se era eu. Por isso levei mais de dez minutos parado relendo exatamente aqueles primeiros pontos de meses atrás. Achei graça de mim, de minha disposição em agradar.

 9. Faz tempo e também não tenho estado afeito aos versos. Parece que os girassóis só nascem vistosamente amarelos porque são semeados em terra boa, confortável à sua sobrevivência. Meu coração não abarca mais que decisões precipitadas e com isso o seu solo foi ficando cada vez mais concreto. A objetividade na qual ele mergulhou não dá espaço sequer para que eu repare a minha volta a beleza do canto dos pássaros. Isso tudo pra dizer que recomeço quando você está dentro da perspectiva do meu verso primeiro.

 10. E u que pensei ser indestrutível e por tanto tempo desconheci os nós mais afeitos, hoje padeço por falta de sol em minha casa.

 11. Ler milhares de coraçõezinhos feitos e escritos a mão não é tarefa fácil, reconheço neles o calor daquele átimo em que uma noite parecia só o começo de uma rua de amores.

 12. Correr atrás de galinhas no cercado também não é tarefa fácil para quem nunca teve trato com os bichos para além dos homens. Mas uma tarde num parque público, na beira de uma piscina, numa praça , de frente pro mar, ou mesmo trajetos longos até sua casa para que estivestes segura ao chegar lá foi o começo de um grande desafio (que não tenho saboreado mais) que me fez entender o brilho de ser bobo por que em troca vais receber bonitas bobagens.

 13. Água tem muito de tua cor e densidade de tua presença. Às vezes me irrita, é bem verdade, mas no final das contas saio insalubre e bem hidratado das vezes em que pergunto ao próprio copo o por quê?

 14. Se dividires 14 por dois o resultado será sete. Sete por sua vez representa os dias da semana que se divididos em horas… Enfim: não vou nunca ser bom com isso de numerologia. Mas consegui me lançar para o próximo ponto. Deve ter alguma lógica nisso: e não me digas que é a lógica de que é justamente o número que vem em sequência. Assim como não imagino que me vás dizer alguma coisa. As vezes sinto que escrevo longas cartas pra ninguém, e quando parece que está lá beirando bater à porta. Não me vês, não me sente em profundidade e por isso acaba sendo nada.

 15.  A faixa número oito daquele cd que me presenteaste parece feito sob medida para quem faz de tudo um plano só para defender as divisas do próprio reino. Ainda assim prefiro a parte que fala sobre a flor de cristal que brotou em meio ao lírio.

 16. A luz apaga justamente por que raia o dia e quando a fantasia tem de voltar para o barracão é como desejar que fevereiro chegue logo. Ao menos entendo as cores por esse tom de Bossa nova.

 17. E escutar bossa nova hoje é como projetar-me para saber como tem sido seu dia. Muitos amigos imagino, muito riso, muitas possibilidade de sentir-se plena.

 18. Mas se eu pudesse elencar um som para oferecer hoje, certamente não seria bossa, e não que não fosse perfeito se o fosse. Mas imagino para ti a laceração de um bando como este aqui.

 19. Nove somados a um dão dez, que  somado ao seu dobro me possibilita escrever o próximo ponto. Eu sou insistente, sabia que ia conseguir encaixar a numerologia de alguma forma, mas dá trabalho viu?

 20. Sinto a sua falta. E escrevo porque não há coragem para telefonemas. Ainda que tivesse hesitaria. Aquela última mensagem veio em tom tão grande de abandono…

 21. E pesa sobre ti a responsabilidade de que esses pontos existam, e persistam. Tive muita dificuldade para recuperar a senha deste velho blog abandonado. Por que não via outra maneira melhor de presentear. Por que mais valioso que um objeto é aquilo que lapidamos com as próprias mãos quando queremos que se sinta especial algo que temos como especial.

 22. Os pingos da chuva que ontem caiu ainda vão estar a dançar ao vento alegre que me traga você como canção. Não sei se é certo pra você que mesmo espalhados ao teu redor meus passos sigam um rumo só.

 23. Gostei especialmente de quando tinha 23 e você estava lá aquele fevereiro mesmo que em junho passado eu estivesse de diferente modo: exilado.

 24. Quando falastes nos ventos da última vez, os bons ventos como desejo de felicidade e realização, por um instante lembrei o quão sonhador pode ser o coração de chumbo. Mas você estava certa, nunca as palavras vão alcançar entendimento e fazer-se sentimento. Ainda que nelas estejam todas as projeções da alma e que a alma, essa, tão indizível afeita aos bons e aos maus seja tão  pouco significativa porque é como invisível aos olhos.

 25. É importante saber ainda que não me interesse saber se a idade que chegará pra ti no próximo ponto faz mais sentido hoje ou daqui a um ano quando eu te faça essa mesma pergunta acrescentando um digito. O calendário parece não ter fim: inicio sim e depois como cantou nossa Roberta: e só recomeçar com luz de cadeia pra nunca se apagar.

 26. Sabes bem que desejo toda a sorte de bênçãos sobre sua vida. Que teus desejos, os bons, sejam sempre atendidos pela força do desejo com o qual impulsionas para que eles aconteçam. Que os ventos sejam de fato de brisa leve e que ao tocar o teu rosto possa ser porto seguro. Possam ser reflexo da paz de estar em par com Deus. E que a graça de tua presença, sempre permaneça como chaga por que imagino pra mim que sua vida seja uma doce primavera. E por que merece a cada dia as flores que ensaiei te mandar mas não sabia se era de bom tom.

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1. Porque imagino quanta dor existe por trás dos versos que escuto e leio e desejo menos que chegue para mim os sentimentalismos?

2. Porque Não há paz, não há como não imaginar fraqueza e lamento.

3. Porque quero a esse e aquele e posso ter aos dois. Ou nenhum de vocês dois no fim e no fim das possibilidades ser eu só.

4. Como poderei dizer  que amei mais do que deveria amar?

5. E como amar em paz sem sentir a ondulação dos cachos de teus cabelos sobre minhas mãos. A fala mansa cujo a pétala à flor desembaraça meu sorriso?

5.1 E como amar em paz sem estar frente ao teu silêncio metódico e tão leal ao que me dizes com tuas conspirações sobre todas as coisas éticas e afeitas aos bom valor de agregar mais que espalhar discórdia?

6. Então já não bastou doer uma vez? Então não bastou ser destrutivo demasiado aquele abril despedaçado? E voltas como se fosse chaga.

7. E em qual gaveta guardarei tudo que acumulei esses últimos meses?

8. Receio que volte a ser deserto, porque só o que busquei foi repousar em teu seio e ter amigos à nossa volta.

8. 1 Odeio sentir que nasceste para mim como uma flor no asfalto.

9. Receio que só reste essa incapacidade de me sentir mais eu, de deixar que rompa o meu peito em soluços porque te enrustiste um dia em minha vida e cada hora que passe é mais porque te amar. Ou que eu já esteja com o pé na estrada e nada a volte a ser como antes amanhã.

10. “Se um passarinho for bicar teu sono saibas que sou eu
Sou eu aurora boreal pousando em seus trigais
E se uma estrela encandecesse no breu dos teus breus
Hás de saber então das trevas que me são mortais
Ei de vergar-me então como os mais reles dos plebeus
Para dizer-te o quanto o meu amor é tão
ateu e herege como os farizeus
Que um dia Cristo expulsou do templo sem lhes dar perdão
Chicoteando, escorraçando aqueles vendilhões
E eu me sinto tal igual um porco e vil pagão
Que nem provou da hóstia o vinho em santa comunhão
Mas que roubou sem dó as cordas do teu coração
E encordou com elas sua enorme solidão.”

Entendes? Parece que tá lá fora, eis que  bate à porta: mas nem está! Só queria que me ajudasses a me perder em teu amor, porque ele pra mim era o principio de tudo.

Aracaju-Se                                                                                                                     12.09.2012

A você que já nem encontro mais:

Queria mesmo começar dizendo que se  já não te conheço, se já não me conheço,  foi também culpa minha. Hoje mais que antes eu precisaria me encontrar em teus olhos e reconhecer: Sim, eu sei, era tudo tão mais simples se houvesse lisura. Seria tudo tão mais simples se entendêssemos que os laços não são tão frouxos e indizíveis a ponto de termos medo de partilhar.

E descobri tantos medos nesses últimos tempos. Por errar, por terem errado comigo. Tudo isso foi dissipando qualquer fagulha de emoção, e lá no fundo quando algo ressoa querendo abrigo, querendo liberdade, acabo por racionalizar tudo. Raciono até mesmo o amor. Esse a que tento fingir que desconheço mas que me impregna cada vez que me traio e volto sempre a tudo quanto me tornou pleno. Cada amor é como se fosse o primeiro dos nossos dias e então como pude crer que não o tivesse em quantidade suficiente pra estar de mãos dadas com você?

Através dele e contigo aprendi a ver a luz do outro lado da lua e agora toda vez que ela  flutua cheia lá em cima, estendo a mão como querendo alcançar tua pele, mesmo que seja só para sentir teus dedos tímidos tocando minhas mãos. E parece não ter cura. Parece latente, parece próximo de mim, e distante algumas léguas de sentido. Preciso encontrar-me sempre com algo que me leve de volta a tudo que me prendeu, porque sou tão livre mesmo sendo de chumbo que foste o único elemento que me teve como que por inteiro, mesmo reparando que me faltava uma perna.

Deves ter notado que passei muito tempo em silêncio, em resguardo. É que a chuva daquele último afago doeu mais que qualquer raio de sol dilacerando minha carne, porque imaginei que já estivesse posto feito tatuagem, e quando desejei arrancá-la de minhas carnes, o sangue escorreu farto ao passo que a retirava de minha pele com os próprios dentes. Se o intento era matar, não matou, se o intento era fazer sofrer, doeu. E bem menos do que imagino que te tenhas doido saber que eu tinha buscado novos horizontes. Eu pensei saber tudo sobre você, mas quem já estava com o pé na estrada não era eu.

faz tanto tempo que já não consigo escrever direito. E tudo isso pra dizer que sim: errei com você, que fui tolo em me perder tentando buscar asas que me levassem pra longe, porque não queria estar atado quando os nós já não conseguiam se desprender. Mas também pra dizer que morri num beijo vago que deste a revelia, e que bem gostaste, é verdade. Morri um pouco, antes estive paralisado.  Não antevi que fosses capaz. As convenções são tão cruéis que nunca me permitia direito sentir ciumes, e os descobri com fúria entre açaís, amigos, viagens:  tanta falta do que dizer. E agora que não é mais nada, não quero que não o seja.

Tudo bem!

Conquista do paraíso

Não seria tolice pedir nesse espaço que seja dado ao povo o que é do povo. Venho acreditando por bastante tempo (e suponho não estar enganado) que a arte deve emanar do povo para o povo. Foi o que pude comprovar na ultima terça-feira dia 06 de setembro no Teatro Tobias Barreto. Casa cheia, pessoas enfileiradas nos corredores e escadarias e naturalmente um calor a mais cooptado pela insuiciente potência de acondicionar a temperatura ambiente. Não, não foi incômodo para quem se esgueirava entre algumas frestas tentando ver os mais de trezentos músicos e o maestro no palco. E também tão pouco importava ver os corpos, a música que se produziu naquela sequência arrebatadora era significantemente audível à todos os presentes. Finalmente a UFS (Universidade Federal de Sergipe) entende e cumpre com o papel importante de propiciar e impulsionar as diversas manifestações artisticas em seu estado natal. A começar pelas artes visuais expostas no Hall de entrada do teatro, e depois, o concerto em conjunto da OSUFS (Orquestra Sinfônica da Universidade Federal de Sergipe) e da orquestra de cordas do Vale do Contiguiba (OSVC). Não menos importante compreender que execuções populares tocam o que há de mais intimo nas pessoas, que se reconhecem no que escutam como pudemos sentir em Piratas do Caribe e Cheiro da Terra, é entender que o povo não está desde os anos iniciais predisposto à erudição das execuções mais clássicas (e seja por isso mesmo que tenhamos visto um Tobias Barreto tão bem repleto como só tinhamos visto até então em abril de 2006 com a Orquestra sinfônica Jovens de Sergipe conduzida pelo também maestro Ion Bressan. A primera obra nos toca por nos remeter diretamente à sequência de filmes estrelada por Jhonny Depp e que retrata tão bem a firmeza excitante dos homens que se lançavam no mar em tempos remotos em troca das mais vãs aventuras naúticas, e a segunda por que cada sergipano ali centrado pôde se sentir um pouco mais intimo de sua cultura ao escutar a  intensa poesia que versa sobre as belezas de Aracaju e as ondas do mar da praia de Atalaia ( tão bem cantadas pelo grande coro no palco e na plateia).

Em sequente atitude viceral La italiana in Argele (Giacomo Rossini) , executada heroicamente pela nova Orquestra que se estrutura a passos vistosos,  seguida pela tão brava audição de um concerto para dois violinos de Vivaldi. A leveza das cordas em uníssono e dos solos expressivos de Márcio Rodrigues (Spalla da ORSSE) e do também violinista Tarcisio Rodrigues que segue como violino principal da OSUFS e também chefe de nipe dos Violinos II  da Sinfônica de Sergipe (ORSSE). Depois, Voltar no tempo e sentir através da música as ondas do mar batendo no casco das grandes caravelas que vinham imponentes descobrir um novo continente (em conquista do paraiso de Vangelis) e a euforia da plateia ao se deparar com um arranjo do maestro Ion Bressan chamado Temas de Cinema ( um verdadeiro passeio lúdico aos mais váriados temas e aberturas de cinema como a abertura da MGM, Batman, James Bond- 007  e a ponte do Rio Kwai).

Devo confessar que os aplausos insurdecedores que seguiram com a execução do tango argentino de Astor Piazzolla (Adios Nonino), tão doce, tão egoistamente sofrido pela leveza do manuseio da clarineta e da resposta das flautas transversais, era de se sentir como também uma perda para cada músico. Uma perda gostosa de algo que só se contempla de quando em quando nos teatros sergipanos. Também não menos excitante lembrar a batida forte da percussão e da rispidez acelerada (um pouco descompassada) das cordas em Batuque ( Oscar Lorenzo Fernadez). Uma tentativa brava de reproduzir essa peça tão densa da cultura erudita popular brasileira (sem parecer redundante o termo, claro). Isso tudo envolto num desejo pueril de acertar, de se fazer compreender, de se fazer ecooar como importante nos quatro cantos. E que bela dose de energia um Alheluia de Handel e uma Carmina Buranna de Carll Orff intensionalmente tão bem desenhadas pelo coro e orquestra. E que tão belo afago esperançoso em cada um ali presente, de que não querer se ausentar da plateia mesmo quando de Bis já havia sido executado Temas de cinema, o povo gritava por mais uma dose De piratas do caribe.

Me recuerdo te olvidar ese amor

Aracaju-SE

Minha pequena bruta flor do querer

Quando me disseste que o adagietto de Mahler lhe trouxe uma sensação a qual imagino ser de desconforto, isso me trouxe felicidade. existia uma árvore bem a sua frente. E o fruto o qual não percebeste de maneira alguma e que por esse motivo talvez você não tenha sentido o desejo de prová-lo, é alma. Descobri a passos lentos que é necessário uma partícula mínima de alma para entender a narrativa daquele texto.A olhos nus Mahler pode nos repelir com  essa 5º sinfonia: mas é preciso ter alma de ouvir e coração de escutar e então, entregar-se a todo o desvelo de sentí-lo a cada nota, a cada dor, não é uma atividade que nos trás tristeza.

Não vejo desabandono ou dor nessa melodia, assim como vejo necessário apunhalar até o ultimo àtimo de consiência dentro de nós mesmo e encontrarmos o sentido para o que Gustav Mahler quer nos dizer: e talvez não queira nada além de nos tocar sem precendentes e por isso estejamos tão próximos de nos acabar nessas sensações de dor intensa. Minha querida, quantas vezes já ouviu de mim que é justamente nessas passagens em que me reconstruo pleno, por que sei que é possível sentir a dor como se fosse minha e nela entender a poesia de amar a tudo quanto está impregnado em mim como uma parte exilada?

E perguntar com esse medo, o porquê de ele me lembrar você , como se antevesse minha boca dizer que a teu lado a sensação era de desalento fez com que  eu lembrasse seu primeiro encontro com uma orquestra: com aquele não entendimento completo e essa confusão de sensações de primeira vez. Ri com paciência e entendi que nesse gesto havia alma. Principalmente em não conseguir escutá-lo até o fim: como quem prevesse que o fim do adagietto era o fim em si. É necessário alma nessas coisas também, na ruptura, no silêncio, no medo de coexistir com a incerteza de um dia ter tudo o que quer. Faz-se necessário entender a alma partida por todas as coisas que nos tocam e que na estranheza nos sentimos vulneráveis. Vejo alma quando dizes que não pode escutá-la até o fim. Não direi também que a escute: buscando um pedaço de nós ou nos repelindo, assim como não pedirei que me mande girassóis quando fizer frio e assim como também não poderia desejar que a magnitude dessa obra represente o fim.

E pensar que esse inverno pareceu eterno, essa nuvem que nos circundou todo esse tempo agora se dissipa lentamente mas já não causa efeito algum. Somente quando o olhei e minhas retinas sangravam ódio entendi que mais um ciclo acbara se iniciando em decorrencia de um outro longo que se fechava. Ri ironicamente, ri de mim inclusive, me vendo aflito por ver-te ali parado. Repousaste a mão sobre minha perna num gesto infantil de estabelecer diálogo e meu aceno arredio com a cabeça era uma indicação visível de que não há amor sem que uma hora o ódio não chegue.

E chegou assim como não quer nada, não o esperei ou provei dele em doses pequenas durante a vida, vida inclusive muito linear e abobalhadamente amistosa à todos aqueles que juntos convergiam comigo à mesa, na cama, no mesmo baho ou nas ideias tolas de mudar o mundo com nossas próprias mãos. Essa construção de agora não prevê espaço para idealismos ou fantasias poéticas: o preço do pão continuará inflacionado e de certo que meus patrões não vão nunca aumentar meu salário só por eu ter desempenhado bons papéis. A aurora e o crepúsculo sempre estarão lá e isso sim é concretamente poético, não a ilusão passageira a qual nos agarramos de que somos ainda o melhor produto nas prateleiras.

Choveu bastante nesse tempo e percebi a chuva com mais tranquilidade e a desejei também, não como antes em que quando o céu a anunciava eu logo coria para buscar um cobertor e os pensamentos adentravam ligeiros minha caixa encefálica. Agora a usava, molhava-me toda vez e o pensamento unico já estava lá dentro; os pingos agonizavam ainda mais como ácido em minha pele e sentir aquela dor era como reavivar todos os maus sentimentos que meses antes desconheci, quando desconheci também a deslealdade. Não se pode dar daquilo que não se tem e por isso mesmo essa sensação única de quem somente dá e recebe é capaz de sentir. Acabou…

As andorinhas todas planejavam aportar um dia sobre essa falsa ideia de paraíso, ainda bem que existe a chuva e quando não esperamos vem o inverno e desmascara todos os portos e somos obrigados a nos proteger dentro de uma casca. Essa é a unica certeza de que vamos continuar rumo a outros portos quando o nível das águas forem baixos e o céu assuma um tom anil. E o ódio que nos alimenta vai pungindo nas veias à doses certas como nos proteger de um canto falso de passáro em sua janela. O verdadeiro não precisa cantar, não precisa estar assentado no umbral de meu quarto. Mais sei quando me olha calado e sabe entender a necessidade da luta nos meus olhos ou que percebe nas minhas retinas quando o encanto pela luta se dissipou e mesmo calado e distante me toca.