A despeito da desordem

8 10 2009

Lucas saiu do quarto quase cambaleante e escorou-se um pouco entre os cantos largos da parede da cozinha, buscou para si um copo com água e foi aos poucos se recompondo; não foi se quer preciso recorrer aos remédios para controlar sua pressão. A respiração lenta dava o tom de seu desespero que ia se pondo em calma.

Desde que seus pais romperam o relacionamento duradouro e aparentemente muito feliz que como fruto deu-lhes três filhos (dentre esses, ele próprio que se assemelhava em muito aos educados e gentis meninos que fazia as estatísticas despencarem sobre a moral e a ética do bom convívio) o menino desenvolveu tal asfixia toda vez que seus pais resolviam voltar às mazelas da não tão bem resolvida separação.

Não era de se estranhar o fato de que Lucas foi o único a fica com o pai, era o único homem e desse modo o relacionamento afetivo do entendimento seria mais pleno, suas duas irmãs como haviam ficado de imediato com a mãe talvez nunca fossem ter a dimensão do que é estar ao meio do fogo cruzado.desordem-domestica

Não restava duvida para o menino em relação ao amor de seus pais pelos três, de todo modo sua mãe insistia em fazer do menino a fonte da discórdia entre eles todos. Sua irmã mais velha já havia se libertado da infância quando a mãe deu-se conta de que por bem das regras perderia a pensão da menina e com isso Lucas passou a ser alvo de desejo; o fascínio por fazer com que o menino fosse viver com ela ia além de seu amor por ele, e não excluindo esse fato o amor tinha que vim junto com a pensão que ele representava se conseguisse provar ao meritíssimo que ela era a mais preparada para cuidar do menino em fase de ebulição hormonal e da afirmação de sua personalidade.

Daí às brigas foi uma linha muito tênue e que criou como vitima mais grave o menino de ainda doze anos. O pai não abria mão de estar ao lado de seu filho e mostrava-se lesado por que de três filhos ficou com apenas um e já a mãe mostrava a ele a importância de o menino ter seus cuidados mais afincados na relação doméstica de sua condição de mulher e mãe.

Em meio aos gritos de acusações extraconjugais e passados em rosto o desgaste da relação num tom violento de desafio à loucura, ninguém teve tempo de perceber-lhe aos cantos chorando por se perceber tão barato quanto todos os objetos que se pode comprar nos mercados. Ninguém se preocupou ao menos em perguntar num tom amistoso com quem o menino pensava ser melhor viver, se as mudanças arrancariam dele parte das conquistas já feitas como os amigos e vizinhos, a sombra da árvore daquela rua em especial ou mesmo às manhãs calmas as quais passava a relatar tímido e acuado o quanto desejava não ser como um fantoche naquela briga dos dois.

O quarto já não era nunca uma fortaleza quando nele ressoava os ecos altos daquilo que chamavam seus pais de uma conversa amigável e a bem dos meninos, a bem de manter a ordem social do lar e com isso a pressão colérica em sua cabeça de escolher entre o pai e a mãe ia definhando o menino em problemas de saúde e autofirmação que ele não estava domesticado a entender e saber a melhor maneira para livrar-se deles. Só sabia mesmo que quando o interfone tocava anunciando a chegada de sua mãe, logo ele corria para a cozinha em busca de seu remédio para controlar a pressão. Em outras vezes ou não estava em casa ou estava dormindo como no dia em que foi abruptamente acordado pelos ecos altos e instintivamente começou a sufocar e saiu do quarto quase cambaleante e escorou-se um pouco entre os cantos largos da parede da cozinha. Buscou para si um copo com água e foi aos poucos se recompondo quando se percebeu no meio de mais um sonho confuso de discórdia familiar que teimava em acordar-lhe várias vezes seguidas à noite quando se aproximava o fim de semana que sabia que ia ter de passar com sua mãe. Sentia como prever a hora de sua chegada e com isso percebia o risco de mais uma desavença, e com isso se perdia em suores intensos que molhava toda a roupa de dormir e não mais conseguia voltar a dormir.

Lucas sentava-se no chão da cozinha e sentia estar atado a nós que talvez não fosse aprender nunca a desmanchar. Seus pensamentos perpassavam o ar da madrugada que assobiava em seus ouvidos as histórias que ia escrevendo em seu caderno para que na se segunda-feira seu professor pudesse ler no horário de intervalo das aulas.