Notícias de uma guerra

22 01 2008

Aracaju-SE

soldier0.jpg

Minha pequena e querida bailarina,

Quanto pesar e quanta ânsia não? Queria assim como o poeta ser uma cicatriz risonha e corrosiva, e por isso resolvi escrever; são dois ou três motivos. O primeiro deles é porque a lua está cheia e não consigo aquietar-me dentro desse casulo sem que transponha em sentidos ou sem que eu tope no caminho com o papel e sinta-o dentro da maciez que iradia ela. Comecei a escrever um email, era uma fuga para os teus carinhos. Imagino que a essa hora também estivesse admirando-a sem reservas, e esse é o segundo motivo pelo qual escrevo. Como poderia ser a cicatriz risonha e corrosiva, como sentiria-te brincar em minha mente feito bailariana? como, se sei que não poderias dessa forma absorver a doçura bruta que tem o papel? Não sentiria mesmo que inconscientemente sua mão deslizar sobre meu dorso nu a medida em que consumisses cada letra com o mesmo blilho que tens no olho qunado vês a lua.

Minha pequena bailarina.. só então percebi que as pessoas estão abolindo a carta e senti medo. Senti medo ao imaginar-te jogando ao lixo um email meu; senti medo de nos perdermos na artificialidade pós-moderna. Me perdoe por contar minhas horas em memórias, mas preciso que saibas que aqui o vento é bruto e ricocheteia em minha face como se fosse duras palavras de amor… Canto e num instante de ilusão caçoou de mim mesmo e de tão tolo que pareço ao escrever com linhas borradas esse vagabundo papel; posso imaginar que daqui a anos  minhas cartas estarão perdidas num relicário e mesmo com isso me vem a felicidade; sinta minhas mãos tocando suavemente seus lábios pois é dessa mesma maneira que desliza de minha mão ao papel a tinta de minha caneta. Não é uma pena; vês que tudo se dissipa com o tempo? Peço que não dissipe-me rasgando esta carta; guarde-a como se fosse a mim, como se fosse a lua pela ultima vez. Lembre que a qualquer momento as paredes irão ruim e que o sol precisa clarear o céu.

Toda a treva se desfaz quando sinto que o vento me carrega, mas sinto medo por ter apenas uma perna. Penso que sou menos do mundo do que ele é de mim e busco a cada instante o apoio de minha perna que falta em seu coração de papel. Tenho medo que eu viva sempre e sempre volte para a caixinha de brinquedos da qual sai; e que minha trajetória seja vê-la em seu castelo de papelão a cada vez que a tarde nos trouxer a lua. Não sou tão valoroso quanto os outros soldadinhos. talves seja imprecindível chorar e por isso as letras na carta estão borradas; não joguemos também as cartas e todo o proceso de escrita, de entrega no correio ou mesmo a selagem, dentro da caixa de brinquedos. As cartão são as verdades que a rigidez do rosto consegue esconder… Escutei em algum lugar que a saudade é como arrumar o quarto do filho que ja morreu. Eu não quero levar comigo minha pequena bailariana mortalha do amor.

 

de seu soldadinho de chumbo, adeus.

22.02.2208


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17 respostas

23 01 2008
diogorafael

O.O

Nossa! Que lindo o texto.
me tocou muito, muito lindo mesmo.
Escrita apaixonada, como sempre.

Talvez a bailarina saiba o quanto valoroso é o soldadinho de chumbo, o difícil seja escapar do castelo de papelão.

Boa lua para você.

23 01 2008
diogorafael

Isso me lembra:

“Os cães estavam assobiando um novo tom
latindo à lua nova
esperando que cheguasse logo
assim poderiam morrer”

“Os grilos cantam à lua nova
doce melodia
esperando a hora
para descansar”

(Nelly Furtado/Diogo Rafael)

23 01 2008
urubusputanus

try

23 01 2008
Thalitex =D

Show de bola…=]
Bem apaixonado o texto.
E como todos os apaixonados, pensou eu,
bem melancólico.
Mas amei mais uma vez a sua escrita!

Menino de ouro…=]

beijão

24 01 2008
Fernanda

Ah esse texto caiu como uma luva, pois ontem a lua foi tão linda e tão apaixonante.
Vc é mesmo amavel meu lindo urubuzinho.

1 02 2008
Nazi

São nesses pequenos textos, que descobrimos o qüão é tão apaixonado e apaixonente é um amigo, e que , embora perto, estarmos distantes, mais nessa carta, dedicada a sua bailarina, q o soldadinho de chumbo mesmo com uma perna, sempre se levante, seja bravo, sempre vá adiante, e que sempre estaja com a cabeça erguida pra enfrentar todas as guerras que possamos nos deparar na vida.
Xerus man.

12 02 2008
victor hugo

pois eh….o amor do soldadinho não encontrara barreiras pois ele apenas ama.

13 02 2008
Uasca

“Step by step, heart to heart, left right left
We all fall to down, like toy soldiers
Bit by bit, torn apart, we never win
But the battle wages on, for toy soldiers”

bem… coloquei uma parte da música “Like Toy Soldiers” pOrq, apesar de achar nãO ter nada a ver com o q tem escritO no seu textO [mas eu achO tenha], o q nunca podemos fazer é desistir! Nunca desista cara! A vida impõe barreiras mas a cada dia q vivemos procuramos e achamos soluções para destruí-las! e outra cOisa… tbm nunca deixe de amar… é um sentimento maravilhoso cara! Apesar de ser as vezes um tanto difícil de descrevê-lo, de traduzi-lo, tentamOs fazer tudo pra demonstrá-lo!

“Pouco a pouco, separados, nós nunca vencemos… Mas a batalha continua, para os soldados de brinquedo”

vllw cara! abraçO!

24 02 2008
Elias de Souza

boa noite, meu caro.
Agradeço pela manifestação de carinho e reconhecimento.
Li seu blog com sede…pois sabes que me inetesso pelo que sua pessoa escreve.
Dentre eles, o que mais me identifiquei foi este, Notícias de uma guerra.
Meu filho, isso é um sonho… encantador… sei o quão difícil é escrever, e vejo que neste trabalho voçe transpira poesia. sem dúvida voce é íntimo das letras, e ourgulho-me de tê-lo ao meu redor.
obrigado.

OBS: trechos que mais me atraíram:
“guarde-a como se fosse a mim, como se fosse a lua pela ultima vez”
“As cartão são as verdades que a rigidez do rosto consegue esconder…”

subscrevo-me
elias de souza

9 04 2008
Vivi

Desde o primeiro dia q li esse texto, achei Ma-ra-vi-lho-so (a dor, a saudade, o amor do soldadinho, a forma carinhosa com q ele se refere a sua bailarina). Me senti presa ao texto , talvez pela admiração à lua q estava cheia, talvez por uma cicatriz risonha e corrosiva (q acredito q tdos temos)…Não sei ao certo, sei q gostei mto e sempre q venho aqui (e olhe q faço isso com mta frequência) volto a admirá-lo;
-
” Escutei em algum lugar que a saudade é como arrumar o quarto do filho que ja morreu”

É verdade, mas felizes daqueles q sentem saudade, isso é a prova q um dia tiveram o privilégio de Amar…!!

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Urubuuuu, vc sabe q adoro o q escreve..!!
Acho até desnecessário esse comentário mas aqui estive…e deixei a minha marca..!!

BeijO*
=))

10 04 2008
urubu

a marca já deixastes a tanto tempo….

2 08 2008
Paulo

Nossa que lindo *.*
Chocante !!!!
http://total-info-web.blogspot.com/

2 08 2008
Fernanda

Parabéns pelo texto, ficou belíssima a sua adaptação…
fez eu sentir saudade da literatura juvenil “O Soldadinho de Chumbo”

maravilhosas histórias que infelizmente a infância atual não lê.

28 10 2008
Rob Gordon

Sensacional este texto. Triste na medida certa, apaixonado na medida certa. Parabéns!

Não conhecia seu blog, mas ele foi o achado do dia. Vou fuçar nos posts anteriores!

Abração

28 10 2008
Guilherme

Oo

q texto incrível, seu blog é promissor, continue assim

eu gostava muito da história do soldadinho d chumbo qndo eu era criança, meu primo tinha um soldadinho feito d chumbo msm, eu achava o máximo

28 10 2008
grupo gauche

caraca, amei o texto! maravilhoso

5 09 2009
Caarool

esse texto é realmente FODA!
ameei!
=)

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