Feeds:
Posts
Comentários

Itabaiana-SE   

Carroceiro…

Receio que essa carta te cause sensações estranhas. As senti diversas vezes e todas em silêncio. É verdade que algumas delas, as muitas, eu calo; não entendo porque cargas d’ àgua eu recei tanto as palavras. Rato na Escola NavalDesejei algumas vezes em muitos dias e horas diversas não conceber o dia em que meus pés seguiram uma dança entre compassos desconcertados, porque teus pés não seguiam iguais aos meus.

E não entendo então o porque de eu achar que por mais que você finja ser longe, distante as vidas, eu sinta você sempre um passo diante de mim. é como um dia de chegar e sei que não virá. No fundo nunca o soube ter, nunca o quis partilhado e meu egoismo não me deixa ver que eu te amo.

Ora, então amar não é ser liberto de toda e qualquer predisposição ao medo? Não é senão o ato continuo de sentir cada rusga dolorosa ou não de um riso distante? E como então eu posso dejejar-te como modelo do que sonhei pra mim? Como posso dizer-te que as línguas falam a mesma boca se as bocas são fartas e tantas quantas o desvelo de querer o vento?

O tempo. Exíguo eu sei. Mas o medo, a sensação de não me sentir querida é muito além do que teus olhos me dizem quando se negam mutuamente nos espaçose por isso me calo, e cogito possibilidades imensas sobre o que não quero ver como real e que tá posto. Nunca vou compreendê-lo, e isso não me fere tanto, não mais do que o fato de que nunca mais veio ter conosco aqui, que não me veio nunca numa carta ou mesmo quando sinto teus beijos entranhados em minhas carnes e isso me fere por não tê-los todos os dias.

Mas sei que o apego pra você vem em outra percepção e que a fidelidade que me tens eu é quem a jogo por baixo do tapete, para não naturalizar o fato de que te tenho intensamente e em verdade às vezes em que me sufocas em silêncio.

Aracaju-SE

 Amigo João

 

Ouvi dizer que a revolução conquistaria à todos o direito não só ao pão mas passeiovan goghtambém a poesia; desse modo fiquei a tarde toda remoendo velhos livros e velhos poetas: por sorte não encontrei nenhum manual revolucionário e nem mesmo a lembrança dos dias confinados às discussões mais filosóficas e existências que políticas, ou mesmo as de quando era sentindo a poesia que nossos corpos se punham frente à luta.

Não faz muito tempo, claro, e por sorte descobri que os versos era a própria revolução (e não que eu entenda a poesia como algo definível ou que conste num manual), mas creio ser um passo de uma armadilha e uma pré-disposição à luta diária: se a poesia nos vem para a revolução ou se a sentimos dessa forma é questão de sentido, de percepção, e contra esse fato não podemos argumentar ou definir uma linha para a sensação. E então como podes me dizer caro amigo que as pessoas ainda se assustam com os seus versos, com todo o realismo fantástico que Bukowski lhe trouxe num vago pensamento em que se escondeu toda a inspiração, e depois, a depuração dos versos, palavra por palavra como um desenho, me vem à mente de que a poesia não conquistará a todos o direito ao pensamento, à liberdade de não refletir sobre o óbvio e anular a sensação de existir e ser a partir de um fragmento.

A verdade é que na sinto muito dessa forma. A poesia veio para mim num dia como essa tarde em que te escrevo amigo João e não a percebi por completo naquele momento e nem em outros dias que seguiram sem que eu soubesse que tudo quando eu pensava e transpunha ao papel era uma respiração poética. A revolução chegou para mim primeiro, de uma outra forma e num outro sentido dialético, só depois entendi que pretendi com o que lia e escrevia a revolução mais intimista.

Desse ponto em que me abriguei, percebi o quanto a poesia lutou para que eu me transformasse, para que o sentido fosse então completo e eu pudesse enxergar com cores as quais nunca ninguém descreveu, e nem descreverá e nem eu a encontrarei na tua poesia. Ela me contempla João, mas receio só você mesmo poder conceber as cores as quais não vejo nela, assim como nunca verás cor alguma na minha revolução.

 


mar

Aracaju- SE

Tenho ido assim como permitem as circunstâncias. E eu que queria ser liberto, percebo pateticamente há um senhor, que isso de liberdade é tóxico vocabular; a sensação de liberdade é um simulacro de prazer.

Passa com a derradeira picada, com o ultimo trago, com a viagem final e fatal. Não entendo como se pode ser livre e civilizado. Porque uma liberdade com hora marcada,  com consulta as nove,  também não interessa.

De qualquer sorte, a vida nossa, ei-la ai, esse mal que aflige os maus e os bons. Mas o homem sitiado tem outros prazeres, decerto. Na cidadela de sua liberdade fantástica, há deleites de ordem menor. E não preciso descer aqui a miudezas de detalhes, porque bem sabe do que falo.

E que paradoxo doloroso, esse de imaginar  com tantas cores um céu livre que se resume ao preto e branco da necessidade, nu de nuances, de entretons.

Viver me parecer ser isso: ir-se despindo dessas cores que matizam a liberdade, até que nos precipitemos camaleonicamente, no vazio incolor da necessidade última: que é morrer.

12.03.2009

Hoje é a ultima vez

aurora-borealis1

Aracajú-SE 20.12.2008

Querido amigo que não me vem mais

Soubesse a dor que fica ao ver ir na canção o mar, não quereria partir jamais. O dia até fez sol, mas não queimava as peles, e o ar parecia pesado demais para atmosfera que no tempo jazia. Foi estranho atender ao telefone e sentir-te nos fios tensos de uma voz, ir partindo. Mas é claro que não posso acreditar que não me escreverás mais nunca uma linha se quer, que tudo quanto se conjugue agora, sinta eu só; não sentirás nada e nem nada dirás, mas de certo será como uma praia povoada por corpos efusivos e teu espírito pleno e calmo entre as margens.

A água era fria? Bom, nem senti direito, o vento estava muito forte e a areia da praia incomodou meus pés. Passastes tanto tempo sem escrever, quase nem soube por onde andou e só pude comemorar tuas vitórias atrasadas, mas lembrei-me e agradeci sim. Se eu pudesse ver teus olhos agora certamente eles me diriam: PSKTIL. De certo que me calaria, para pensar, porque é incrível como a teu lado não há o que se diga que não tenha reflexo no outro.

Hoje não sorri e decidi que melhor seria escrever-te, entenderias a necessidade de não rir, não para sempre, mas não rir só  hoje pela ultima vez. Percebi que a muito também não rias, estamos ficando sérios: um boneco como eu tão sério, boa coisa não é. É que o vento me soprou gelado e não saíram da caixa de brinquedos todos os outros amigos e de repente vi-me hoje só. A bailarina não me escreve o poetinha também nunca mais estabeleceu contato. Sei que você, ao menos você, se não estivesse ocupado, escrever-me-ia. Aliás, hoje fui buscar num relicário algumas cartas antigas e me veio uma tua: sua letra é mesmo algo indecifrável ( e não adianta fazer cara feia por isso, sabes que é bem verdade).

Horas e horas de olhos fitos para entender que queria dizer-me que o ano seria bom, ao menos que você desejava que assim fosse, ah, e nem esquecer-me-ia de dizer que os girassóis naquele quadro são realmente fascinantes, se cheira bem, nem eu nem você saberemos, mas fiquei curioso de entender como a partir dele te veio aquele poema em que falavas das cores e dos tons celestiais, cada anjo, cada nuvem encorpada multicor. Quem diria que ias escrever tão bem os versos. PKSTIL, não reclame, isso é um elogio e fiquei feliz com o poema. É certo que levarei mais alguma eternidade para senti-lo. Guardado já está, a verdade é que se perdeu no vento, mas me lembro alguns versos seguramente.

Depois vou querer saber como se faz e como se sente, era tão intenso que nem compreendi bem o ensino. Também, mas falava-me com os olhos que me dizia com a boca. Só de lembrar o frio na barriga ao imaginar que não ia conseguir soprar dentro da garrafa de vidro, ufa. Não seria eu um bom flautista mesmo. Esse é um oficio para quem os tem em gozo: mas adimiro-te ainda por tua coragem, a bailarina também é forte. Sair de casa e viver a arte em outro lugar e por cima acreditar na magia dos sons. Não sou fraco, não é isso, mas penso se nos vale de qualquer coisa que se oferte em corações abertos.

Ei  amigo, quase ia me esquecendo que te prometi uns versos. Esses meses foram tão estranho que nem mesmo escrever eu conseguia. Agora te mando este para que sintas como se fosse o vento em calmaria e o balanço doce do mar agitando as ondas que batem solenes a partida das jangadas, porque chega de tarde e ele se vai sem muito alarde, segue a tarde a procurar, a representar.

 

Os objetos nenhum mexia

E o lençol estava alinhado na cama

Luziam teus olhos pequenos

Na passagem trôpega

Da minha ânsia.

A brancura de teu corpo em serenos pêlos

Balançava calma o desvelo

E as sobrancelhas

Que nesse corpo jazia

Trazia-me a sede

Que os tímidos lábios ardem

Na pausa do beijo.

 

O peso do teu corpo

Sob minhas mãos sedentas

Ardia ao ouvido

Ao gemido arfando

E calaram-se as línguas todas

No suor das mãos coladas

E com o toque do meu rosto

Na rala grama de tua cara.

 

Porque abrupto o silêncio cala

Quem consome a noite em dias

E o desejo arde às portas

Do chocolate que esquecia

Sob o solo de teu chão

As roupas que ainda me possuíam.

 

E foi-se o silencio

Para eu ver teu rosto

No roto espelho refletido

A sensação do gosto.

De mãos e pedras

Não será tão simples

As portas sempre abertas,

E cada vez mais

Um átomo seu em mim.

Dar-te tudo:

A espera e o amanhecer.

Estarei aqui assim que precise

Conversar….

rir

chorar

ser

Estar.

Meu lado pode ser vago

E tragar a tua alma

Uma pedra.

As flores não estão nos campos

Nem meu coração é uma caixa.

Os

Girassóis

Circundam

A espera de tuas mãos grandes

Enquanto teus dedos

No silencio cambia

E recolhe em todo o pátio

A fina rama

Que o esquecimento não apaga.

fotografia by- Fernando Cocó

 

Aracaju-se

Quanta saudade meu doce soldadinho de chumbo

A espera é quase tão lasciva quanto o medo. E eu sempre me perdi em meio ao tempo. Peço que se isente de qualquer dor e sinta essas linhas como se fossem meus dedos em teu rosto, como se fosse aquele primeiro olhar timido e tão silencioso que mais pareciamos partes perdidas de algo que só conheceriamos mais a frente. Recebi todas as tuas cartas e as lí como quem precisa desprender-se de algo e buscar a busca. A verdade é que sempre senti medo e fui egoísta a ponto de não conseguir largar de vez a minha caixinha de brinquedo. Sei o quanto te doi a espera por alguma resposta minha mas meu coração é de papel  e não sente igual aos outros. Cada um sente sobre perspectivas distintas e eu sempre o amei tanto que o afastei como que para me proteger da dor.

Então como pode haver paz se sou uma bailarina com o coração que a qualquer chuva pode se rasgar e mesmo você um bravo soldado de chumbo que se sustenta em apenas uma perna? Não estou falando de diferenças em si, não é isso. Mas o fato é que nos amamos tanto e somos tão distantes. A minha fragilidade construida com esse ballet todo impede-me de abandonar  o lago dos cisnes, e não seria cruel se te pedisse que dançasse essa obra comigo? No fundo sei que também sentes muitos medos, e os laços que te prendem aí são louváveis, mas te corroem em silêncio e como pode isso se foi você mesmo que um dia quando estavamos frente a frente alí sentados que me disse que o maior pecado é o silêncio que corrói a alma?

Ao menos fica a certeza de que em nenhum instante eu deixei de amar-te como quando aquele dia em que cansados ficamos olhando um nos olhos do outro e com isso foi-se todas as estrelas e o céu apagou-se num clarão que trazia o sol para raiar o dia. Meus olhos pesaram por vezes aqui sozinha e sempre busquei a ti, sempre o sentia em mim cada vez que recebia uma carta sua e não as largava por semanas. Ao lê-las meu coração de papel até pareceia possui veias e bombear amor, e quantas vezes pensei em largar de vez o ballet e ir ter com você meu doce soldadinho de chumbo.

O amor é como um objeto não identificado e por mais que me doa essa distancia toda não sei de mim as verdades e a força para seguir rumo a ti. A saudade é o pior tormento. Faz muito tempo que não mandava uma carta a alguém e nem sabia bem por onde começar.  Tenho medo que não me esperes mais, tenho medo de me perder em mim mesmo e não ter-me dado oportunidade de ser. Tenho medo que um dia você também me esqueça.

Quero que você me dê a mão… De sua bailarina

Teatro Mágico

A BAILARINA E O SOLDADO DE CHUMBO

De repente toda mágica se acabou e na nossa casinha apertada
Tá faltando graça e tá sobrando espaço
Tô sobrando num sobrado sem ventilador
Vai dizer, que nossas preces não alcançaram o céu
Coração, que inda vem me perguntar o que conteceu
Contece seu rosto por acaso ainda tem o gosto meuCom duas conchas nas mãos, vem vestida de ouro e poeira
Falando de um jeito maneira
Da lua, da estrela e de um certo amor
Que agora acompanha seu dia, e pra minha poesia é o ponto final
É o ponto em que recomeço, recanto e despeço da magia que balança o mundo
Bailarina, soldado de chumbo
Bailarina, soldado de chumbo
Beijo e dor
Bailarina, soldado de chumbo
Nossa casinha pequena parece vazia sem o teu balé
Sem teu café requentado soldado de chumbo não fica de pé
Nossa casinha vazia parece pequena sem o teu balé
Sem teu café requentado soldado de chumbo não fica de pé    

Aracaju

Querido poetinha

Porque hoje só me resta o cansaço. Esperei toda um mês por uma carta, uma linha ao menos de coisa alguma que me fizesse sentir o vento. Que fossem olhos que tocassem e mãos que me vissem por completo. O dia não veio e com ele uma carne que dilacera mais que antes: É o medo. Quando vem os segundos e te empurram sempre um minuto para cada hora do mês, os anos passam por ti e questionam teus atos. Escorregamos sempre mais um defeito: não sabemos esperar, ou temos pressa demais para o pouco tempo que é indízivel. é estranho como sentimos a saudade né poetinha? Como sentimos dor, medo, e principalmente esperamos por tempos em que virão de algum lado toda a calmaria.

E tudo que se sonhou navega ancorado na busca, no desejo de sermos, de simplismente sermos. E não é que isso tudo não é questão de tempo. Eu mesmo, estou aqui a te escrever com a mesma sincronia de um tango de Piazzolla, no mesmo compasso doce depois que se encerra o solo. E mesmo que o senhor, meu nobre e doce poetinha quixotesco não entenda as batidas dos meus dedos na madeira boa do violino, não deixarei vencer os moinhos que algum dia antes deixei escapar.

Recebi a dois dias teu email: Tive medo por estar só entre os detritos. Não nego que sejas forte, mas não possuis uma espingarda como a minha nem mesmo um pelotão inteiro de outros soldados para te fazer guarda. Entende agora a necessidade de não estarmos sós? Lembra quando conspiramos contra os planetas e tudo isso em notas breves. Feliz presença em meu caminho aquele dia em que nos vimos em outra terra, e tu me disseste no e-mail: Agora estou melhor. Que terrivel experiencia essa de ficar enfurnado em uma caverna. Aquele lugar é muito deprimente. Por sorte os colegas são em geral amistosos, o que atenua a situação. De fato, eu estava cansado e, embora não triste, entediado. Precisava naquele instante de um banho, de uma refeição a minha maneira e de uma cama onde ficar. Mas não posso me angustiar com isso, porque é a função do homus laborandi que mora em mim, e em todos os outros idiotas sociais. E quem pode ir contra o fato nu e cru que férias no Chile custam caro?  Bem sabe que meu conhecimento musical é obtuso, que minha arte pendeu pra outro viés. Apesar disso, posso dizer que foi uma experiência agradável ouvir sua orquestra e vê-lo tocar. Achei curioso aquele tambor colossal e uma espécie do gongo do lado esquerdo do palco.  

Realmente foi uma coincidência tremenda para nós que não entendemos as regras não escritas dos encontros e desencontros. Talvez a lição poética do rabugento Aristóteles a respeito da necessidade e verossimilhança se aplique à vida dos homens ‘inferiores’ e nao somente às casas reais. Se for assim, então algumas coisas TÊM que acontecer e se ocorrer de outro modo é que o  destino rasgou o texto para reescrevê-lo desde a primeira linha…
 
Então poetinha, só não começe a escrever do ponto daquele estranho começo  e nem mesmo do ponto daquele ultimo abraço.  
 Fique bem.

Postagens Antigas »